quarta-feira, 27 de junho de 2012

37 semanas

Estou pronta, João. Quando quiseres, há uma porta aberta para este mundo. O teu espaço está a ficar cada vez mais pequeno, como na canção da Llasa (Soon this place will be too small) e eu e o pai já estamos à espera. Temos ainda coisas para tratar para te receber o melhor possível - últimos exames, últimas compras - mas quando estiveres pronto, cá estaremos para te receber. Nós, e muita gente que te quer conhecer. Sabes, primeiro vais conhecer o pai, a mãe e os manos. Esse será o teu mundo. Os avós, os tios, os primos, será o teu mundo alargado. E os amigos dos pais, alguns como família, também farão parte do teu mundo. Mas o mundo é feito de muito mais coisas do que pessoas. Não vejo a hora de te mostrar o verde das árvores, o azul do céu, o cheiro das flores, o cheiro do mar, o tacto da areia, da comida, dos gatos, o som do vento, da chuva, dos rios e do mar.
Sabes, este desejo de ter filhos cresceu com a vontade de mostrar o mundo a alguém a crescer. E de ter o privilégio de ver alguém, cada dia, a descobrir. Este mundo está cheio de coisas para descobrir. Não são apenas coisas boas, prazenteiras, são também coisas irritantes como as comichões, chatas como a espera, más como a injustiça, revoltantes como a falta de liberdade. As pessoas, em qualquer idade, podem sempre descobrir coisas novas, das lindas e das outras. Mas uma criança faz-nos descobrir mais. Sabes porquê? Porque descobre anos depois de os grandes descobrirem - têm uma nova visão, têm mais anos de mundo para digerir no seu olhar. Como sou antropóloga (depois explico-te), ver alguém crescer, cada dia, será como aprender a viver num contexto novo. Um filho é um país inteiro para conhecer, e nunca se conhece todo, porque tem algo de si que apenas lhe diz respeito.
Querido João,
Isto são tudo palavras condensadas de coisas que já pensei muitas vezes. A única coisa simples que já sei dizer é que, não sei porquê nem como, porque não é racional amar quem não conhecemos, sinto crescer, como a barriga, um amor novo, com contornos novos na forma de amar, e cresce também a felicidade de que em breve irei finalmente conhecer-te.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

faltam 3 semanas e uns dias

tempo de últimas análises - exsudado vaginal e anal para despistar uma bactéria qualquer coisa B, que, no caso de existir, pode passar para o bebé na altura do parto. vou fazer isso nos próximos dias.

ontem liguei para o Hospital para marcar a visita à maternidade, e estava tudo cheio no dia que eu queria, então marcaram-me para o dia 5 de Julho, às quase 39 semanas, se calhar é melhor levar a mala nesse dia...

Aproveitei para perguntar sobre o procedimento do CTG que me vão fazer na semana que vem, e se fazem o toque, porque tenho ouvido dizer que o toque dói, que pode fazer sangue - para que se faz um toque se não está na altura de nascer? é impressionante o que já li e mesmo assim não falarem nestas coisas, no que costuma acontecer nos procedimentos hospitalares. bem sei que não dá para saber tudo, mas a verdade é que o dia se aproxima... A enfermeira tranquilizou-me - à partida não há nenhum toque por dentro, o CTG liga-nos uns fios à barriga e vê como está o bebé e se há contracções e de que género, a partir de fora. Uff...

É também tempo de acabar o trabalho - parece que ainda tenho trabalhado mais do que o costume, mas é o cansaço a falar. Faltam poucas tarefas essenciais, as outras por mais inacabadas que estejam já não me preocupam tanto. Estou desejosa de ter tempo para rearrumar as gavetas da roupa do bebé, de fazer as últimas compras no IKEA (banheira, colchão do berço, mais uma protecção de colchão, um tapete).

quinta-feira, 14 de junho de 2012

35 quase 36 semanas

Dados novos: o bebé tem agora 2,650kg; o colo do útero está intacto, com 40mm; peso 70kg, mais 10-11 do que no início da gravidez; já me caiu uma pinga branca dos mamilos; tenho de vez em quando umas "dorzinhas" novas por dentro, na parte de trás e debaixo da barriga valha-me deus, eu vou querer epidural, está-me cá a parecer; ao contrário do que estava à espera, parece-me que tenho mais energia e acabo por fazer mais coisas em casa; o cantinho do bebé está quase quase pronto; a mala do hospital está pronta (mas vou fazê-la outra vez).

Medos novos/renovados: que o colo do útero não se desfaça como deve; que me mandem deitar e não me possa mexer no hospital na hora H; que ponham chucha ao bebé sem eu ver; que as enfermeiras digam coisas diferentes e eu fique sem saber o que fazer; etc, não vale a pena alimentar medos.

Entusiasmos novos: não deve ser assim tão complicado mudar fraldas; não deve ser assim tão complicado dar banhos; não deve ser assim tão complicado dar de mamar (e se for complicado, estou preparada para tentar ultrapassar as dificuldades sem stressar demasiado com o que não for como eu gostaria).

Desejos novos: quero ir à praia, cheirar o mar, sentir o frio da água nos pés que estão uma bola, andar na areia; quero mesmo despachar o trabalho e arrumar outra vez as gavetas do bebé; completar o cantinho dele; passar horas a pesquisar sobre livros, música e brinquedos para bebés.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

34 semanas e 3 dias

Ontem fui ver um filme de ficção científica com o M., o Prometheus. Tinha uma parte horrível, com um alien a sair da barriga de uma mulher, que não vi (não vi mesmo, nem pelo meio das cortinas feitas pelos dedos para "não ver" as cenas horríveis no cinema). não sou muito fã de ficção científica, mas lá fiquei a pensar na possibilidade de tudo aquilo. passa-se em 2091, quando uma nave chega a uma planeta com vida, que os cientistas procuravam há muito, seguindo as pistas de pinturas rupestres e de representações da suposta visita de extraterrestres em várias civilizações, e depois a coisa não corre bem, porque o filme segue as pegadas do Alien, é do Ridley Scott, e assim há mais suspense, não fosse a ficção científica um género que utiliza a sala de cinema para o seu melhor - o suspense, o maravilhoso, a possibilidade dos outros mundos. 

Sempre pensei na possibilidade de, em tempo de vida, os cientistas virem a descobrir vida noutro planeta. Além da vida no sentido mais amplo, da presença de água, ou elementos que se identifiquem com a palavra vida tal como é entendida na terra, a vida parecida com a vida humana, na sua forma contemporânea, ou seja, que os extraterrestres descobertos estejam vivos e queiram "conversar" connosco. Também penso às vezes na possibilidade de, em tempo de vida, o planeta terra acabar. Não é muito provável, mas pode acontecer. Pode vir aí um meteorito dos grandes e dar cabo disto tudo. Ou uma guerra atómica que meia dúzia de parvalhões podem infelizmente provocar. Ter um filho prolonga essas possibilidades. Será que o Joãozinho vai ver alguma destas coisas? Será que ele vai pensar muito nisso? Será que ele terá uma curiosidade científica grande? Será que ele quererá descobrir coisas destas? Será que viverá de acordo com o mundo a acontecer (o que me parece mais desejável) ou será que viverá em expectativa constante? Isto são questões grandes que pouco interessam ao que está a acontecer agora.

Estar grávida e estar prestes a ter um filho dá muito a noção de que se deve viver o presente. Até porque não há outra maneira. Hoje faço isto, amanhã habituo-me àquilo, depois de amanhã vem qualquer coisa de novo de que não estava à espera, no dia seguinte aprendo sobre isso, e no dia depois resolvo, e depois mais um dia e usufruo da situação e outro dia mais, e mais uma coisa de novo.

De qualquer forma transportar um bebé na barriga que só vou conhecer quando nascer, faz-me imaginar tanta coisa. Um alien não é, porque fiz a amniocentese, e tem os cromossomas dos humanos, uff. Mas nada da sua vida que está prestes a começar pode ser realmente adivinhado. Bem vinda à vida do não controlar nada. Por estranho que pareça, isso deixa-me mais tranquila. Querer controlar o que vai acontecendo é tão cansativo.