quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Decidir ser mãe

A minha mãe sempre apoiou a ideia de que não é preciso ser mãe para se ser uma mulher realizada. Às vezes esta ideia fazia-me confusão, porque afinal ela tem duas filhas, e isso não parecia, perante esta ideia, ser uma coisa assim tão importante. Não era isso que estava em questão. Era uma questão de emancipação feminina. A verdade é que conheço várias mulheres que não foram mães que não são nem infelizes nem reflectem qualquer amargura. E não são menos mulheres. Pelo contrário, algumas parecem encarnar o que há de mais feminino, mais ligado à terra, parecem saber mais sobre as coisas que mais ninguém sabe, dotes extraordinários de ligação à natureza, e não estou a falar de bruxas, estou a falar de cozinheiras, amigas que parecem compreender melhor, que têm mais tempo para ouvir. Durante muitos anos se me perguntassem se queria ser mãe, parecia que era conforme chovia ou não. Variava consoante o pessimismo sobre o mundo. Estão tantas coisas mal no mundo, há tantas crianças sem condições, para quê pôr outra no mundo? E, lembrando as minhas angústias sobre a vida, quem sou eu para trazer alguém ao mundo que pode vir a passar pelos mesmos dilemas? Às vezes parecia-me egoísmo querer ser mãe, às vezes parecia-me generosidade total, desprendimento. Em todos os casos, parecia ser realmente muita responsabilidade. Concordava com a ideia de que para se ser mãe, ou pai, era mesmo preciso prever, pensar nisso, planear. Ter pelo menos a noção da responsabilidade que traz. Mas a mim a responsabilidade sempre me deu muito medo. Ser responsável por outros atemorizava-me. E se corresse alguma coisa mal? Assim em modo de psicologia barata, parecia sofrer de complexo de culpa por antecipação. Após, desde os 25 anos mais ou menos, ter tido apenas duas vezes desejo real de ser mãe, aos 33 mais ou menos, tive um momento, o chamado relógio biológico, acho, um momento muito primário, quase animal, em que senti que tinha este corpo, com mamas e útero, preparado há tanto tempo, e à espera de cumprir uma função - ser fecundado, estar grávida, parir, dar de mamar, cuidar de uma cria. É um bocado cru, mas foi mais ou menos isso que senti. Depois chorei porque percebi que tinha pouco tempo. E também chorei porque percebi que o meu egoísmo e desejo era maior do que as noções racionais que tinha aprendido a gerir. Mas claro que o relógio biológico só aconteceu depois de conhecer o M. Quando as coisas correm bem num casal os sentimentos de desejo de filhos acontecem naturalmente. Mas ele já tinha dois, será que queria mais? Queria! Dali a planear as coisas minimamente para dar tempo ao namoro ao dois, ao começo de uma vida em casal, ao habituar a uma família recomposta (o M. e a ex dividem o tempo mesmo ao meio), determinámos o mês a partir do qual começaríamos a brincar sem protecção. A iminência de tentar engravidar trouxe um stress novo, de que me tinham falado várias amigas, podia demorar 3 meses, 6 meses, um ano, se demorasse mais tinha de ir ao médico, mas também podia ser logo. Invariavelmente diziam-me que o principal era não pensar nisso, "aproveitar", mas como era possível isso para alguém que assenta os dias do período na agenda desde o início? E, sendo regular e tendo muita noção do tempo, sabia sempre quantos dias faltavam para o período, se estava atrasada, se estava potencialmente em ovulação, etc. Como já tínhamos decidido que queríamos ser pais, o que pensei, para descontrair a pressão de conseguir ou não conseguir engravidar, foi pensar no "pior" (um velho hábito/superstição de que pensar o pior permite que tudo seja sempre melhor do que o esperado, o que nem sempre resulta, mas enfim). Tornou-se claro que caso as coisas corressem mal, quer fosse por não conseguir engravidar, quer fosse por a gravidez correr mal por alguma razão, que podíamos começar um processo de adopção. Aliás, mesmo conseguindo e sucedendo em ter um filho biológico, se as economias familiares permitirem, queremos adoptar. O que não será fácil tendo mais dois metade do tempo, e muito menos por causa da crise económica. Começámos os treinos (como se diz na gíria internáutica sobre o assunto, em blogues, foruns e afins) em Outubro de 2011. Sempre muito consciente do que se passava, achei que era só o princípio. Não consegui abster-me de que qualquer relação podia resultar em fecundação, principalmente nos dias correspondentes à ovulação. Isto é no que dá termos tanta informação! Mas mesmo assim, poupando os pormenores, foi inesquecível. Até porque esta fase durou muito pouco tempo. Passadas duas semanas o período não veio. Fiz um teste e deu negativo. Estava a acontecer o que temia - o período não vinha porque tinha metido na cabeça que tinha engravidado, mas não, era só stress a desregular hormonas e a provocar adiamentos na ovulação seguinte. Mas o período continuou sem chegar. E passado uma semana voltei a fazer um teste. Positivo. E assim começou a aventura de estar grávida depois dos 35.

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